
Que detalhes na moda uniram Michelle Obama, Pipa Middleton, Amal Clooney e a rainha Isabel II? As rendas e os bordados de St. Gallen

Já há algum tempo que vos queria escrever acerca da moda do Médio Oriente.
Como qualquer outra região, o Golfo Pérsico tem as suas particularidades culturais, um zeitgeist ou circunstâncias nas quais a religião enforma, de forma orgânica, os modos quotidianos e, consequentemente, as macrotendências. Estilo e estética particulares, enquanto formas de expressão de moda e de materialização de tendências.

organizado pelo Arab Fashion Council, Dubai Design District
Se já aqui tivesse escrito acerca da moda nesta região teria sido outra a ligeireza, reflexo de ter vivido no Golfo Pérsico e lá ter trabalhado com marcas de moda durante mais de uma década.

Mas o despertar dos recentes conflitos na região foi o trigger para olharmos agora para estes mercados enquanto plataformas giratórias dos abastecimentos do nosso próprio conceito de moda, operacionalização de marcas e respetivos artigos. Afinal muito daquilo que nos é dado a consumir no ocidente, pelas mãos de marcas ocidentais, foi produzido na Ásia e “faz escala” no Médio Oriente.
Com o eclodir da invasão da Ucrânia e da consequente necessidade de redirecionar para o Golfo a maioria dos voos euroasiáticos, essas “escalas” sedimentaram a posição do Médio Oriente como hub central de logística aérea para diversos produtores asiáticos. A título de exemplo, países tidos como fornecedores-chave de têxteis e vestuário como o Bangladesh, India, Sri Lanka faziam transitar quase metade das respetivas cargas aéreas através deste hub logístico com recurso a companhias aéreas como a Emirates, a Qatar Airways e a Ethiad.

Qatar Airways, L’Occitane en Provence, Salam Studios – alguns dos patrocinadores oficiais de
Concursos e prémios anuais de retalho de moda, Doha, Qatar
Atualmente com estas companhias aéreas quase totalmente paralisadas, grandes volumes de produção destinados a cadeias de moda como a Inditex, H&M, M&S e Primark ficaram retidos, no início do mês, em aeroportos do Bangladesh e da India.

no Abu Dhabi mall, Emirados Árabes Unidos
Relembrar que segundo o relatório anual (2023) do grupo Inditex, 150 dos seus fornecedores se localizam no Bagladesh, 122 na India e 69 no Paquistão.
Mas, os principais aeroportos de trânsito de pessoas e mercadorias – Dubai, Abu Dhabi e Doha foram encerrados, com retomas de voos comerciais e de carga muito limitadas e, consequentemente, acrescido da inflação de preços nas rotas aéreas.
Parêntesis para destacar que o início deste conflito no Médio Oriente também corresponde à reabertura de muitas fábricas e retoma da produção pós Ano Novo Chinês. Os fabricantes de têxtil e vestuário na China necessitam de repor stocks ao nível de matérias-primas e aviamentos, ao mesmo tempo que continuarão a expedir as encomendas de Primavera-Verão 2026.
A posterior limitação de navegação no estreito de Ormuz veio agravar a situação da cadeia de abastecimento atingindo também as rotas marítimas. À inflação de preços – disparou 50% no espaço de uma semana, junta-se a questão do aumento dos prazos de trânsito e consequentes atrasos na expedição e receção de mercadorias.
Ao encerramento (ainda que parcial) do espaço aéreo do Golfo sucedeu o estrangulamento marítimo desorganizando a logística, no geral.
Os ataques de retaliação do Irão em todo o Golfo provocaram a maior perturbação das atividades económicas desde a pandemia, forçando operações de retalho de moda ao nível mínimo. De entre várias capitais como Abu Dhabi, Doha, cidade do Kuwait, a cidade do Dubai tem efetivamente sido uma das mais fustigadas com as operações nos seus centros comerciais reduzidas ao nível mínimo.
Para o setor exportador de vestuário europeu os Emirados Árabes Unidos são, no que concerne artigos de luxo, o 11º maior cliente com €735,8M de mercadorias importadas (Jan. – Set. 2025).
Grupos retalhistas como a Chalhoub (gere 900 lojas na região, com marcas como Sephora, Versace, Jimmy Choo…), Majid Al Futtaim, Al Yasra, entre outros, detêm operações em todo o Golfo Pérsico vendo atualmente as mesmas bastante limitadas.

Bahrain Trade Center, atualmente com operações de retalho de moda limitadas, Manama, Bahrain
De sublinhar que o conflito iniciou durante o mês do Ramadão, período durante o qual os bens alimentares, restauração e venda de moda atingem o pico de vendas anual no calendário comercial.
Para uma região cujas relações presenciais servem de base à realização de negócios, a perda do networkinggerado durante os iftar e suhoors do Ramadão acrescentam um custo invisível, mas significativo, às limitações já impostas pelos ataques.

Lançamento da coleção dedicada ao Ramadão, da marca espanhola Xti
no Doha Festival City, Doha, Qatar
Segundo a RBC Capital Markets, o Médio Oriente representa entre 5% a 10% das despesas globais efetuadas com luxo, mas, segundo a Bain foi a região que registou “o melhor desempenho em 2025”. Sendo igualmente um mercado de retalho de viagem, o cancelamento sucessivo de voos e o encerramento do espaço aéreo trará consequências consideráveis.

A consultora de negócios de moda Elsa Dionísio com Fashion Business Management
no evento Retail Summit, no hotel W Dubai, EAU
As restrições que afetam o Golfo, e a subida mecânica do preço dos voos diretos, poderão, por conseguinte, levar os compradores de moda a renunciar à participação em encontros profissionais por um período de tempo indeterminado.

A consultora de negócios de moda com Fashion Business Management juto a marcas de moda locais no evento Prete A Cover Buyers Lane, no hotel Atlantis – The Palm, Dubai
Segundo o FashionNetwork, “se os compradores do Médio Oriente não puderem viajar para Paris, Milão, etc. isso também poderá prejudicar as vendas de bens de luxo na Europa. De recordar que as marcas têm vindo a investir em lojas sumptuosas e eventos exclusivos em toda a região”.
no evento Mercedes Benz Fashion Week, Madrid, Espanha.
Este artigo foi também publicado como artigo de opinião na revista LuxWoman podendo consultá-lo aqui.



